O MUNDO DOS MAGOS
O MUNDO DOS MAGOS
| Autor |
Gilberto Schoereder |
|
30/03/2026 |
A figura do mago pode ser encontrada nas mais antigas culturas do planeta, com funções quase sempre de proteger e ajudar a comunidade à qual pertence, estabelecendo contato com o sobrenatural, com os seres que habitam os mundos invisíveis.
Imagem: Gordon Taylor/ Pixabay.
O famoso antropólogo Sir James George Frazer (1854-1941), autor de O Ramo de Ouro (1890), entendia que a magia se baseia em dois princípios lógicos. O primeiro pressupõe que o semelhante produz o semelhante, ou que um efeito se assemelha à sua causa. O segundo entende que as coisas que estiveram em contato umas com as outras continuam a agir umas sobre as outras, mesmo à distância, depois que o contato físico foi rompido. Ele chamou ao primeiro tipo de “lei de similaridade”, e ao segundo de “lei do contato ou contágio”.
A partir desse ponto de vista, Frazer estabeleceu suas pesquisas e observações sobre as sociedades primitivas, o surgimento dos xamãs e seu papel nessas culturas, em um estudo ainda hoje reverenciado.
Em uma aproximação mais simples do tema, pode-se dizer que a magia, e consequentemente os magos, surgiu devido a uma necessidade ou desejo de controlar e manipular o ambiente, mais especificamente as situações críticas.
Para muitos autores, a magia, de similaridade ou de contágio, tinha como base igualmente uma crença no sobrenatural, em um mundo normalmente invisível para nós e que poderia ser acessado mediante o emprego de certas fórmulas ou rituais. Outros estudiosos entendem que o conceito de mundos invisíveis e toda a relação estabelecida entre os seres humanos e esses mundos, surgiu posteriormente. Inicialmente, a magia teria apenas a função de controle e manipulação.
Segue-se, também, que estudiosos veem a magia como uma espécie de pré-ciência. Em outras palavras, sem ter explicações adequadas para fenômenos que ocorriam à sua volta, os seres humanos recorreram ao sobrenatural, ao que não era visto, mas era sentido.
Na verdade, é muito difícil definir o que é a magia – ou o que são e a função dos magos – uma vez que não existe apenas uma magia. O próprio conceito muda de acordo com a época e a cultura em que é utilizado, ainda que hoje em dia seja comum os “magos”, verdadeiros ou não, apresentarem a ideia de que a magia sempre foi a mesma, sempre baseada nos mesmos conceitos e relação com a natureza.
Imagem: Gordon Taylor/ Pixabay.
O que talvez possa ser um ponto em comum à magia de todos os tempos é a sua estreita e absolutamente indispensável relação com a fé, a crença naquilo que está sendo realizado, ou mesmo com as dimensões invisíveis com as quais se está tentando entrar em contato. Alguns estudiosos apresentam os rituais de magia como exercícios de fixação no objetivo, de concentração do pensamento, da vontade e, portanto, da fé, no fim que se pretende atingir. Não seriam exatamente as fórmulas ritualísticas as responsáveis pela realização da magia, mas a fé no objetivo e nos métodos.
Curiosamente, tantos anos depois da magia e a ciência terem seguido caminhos absolutamente distintos, a ciência começa a realizar experiências que comprovam o poder da fé para atingir determinados objetivos. É o caso – entre outras pesquisas sendo realizadas em todo o mundo –, do epidemiologista e professor universitário Jeff Levin, autor de Deus, Fé e Saúde (Ed. Cultrix), professor do Medical Humanities e diretor do Programo n Religion and Population Health no Institute for Studies of Religion.
Ele pesquisou intensamente a relação entre as orações ou as preces e a saúde. Segundo nos disse em entrevista, passou mais de 20 anos investigando como a fé ou o envolvimento religioso influenciam a saúde física e mental. “[...] hoje, a ideia de que aspectos da vida religiosa podem ser benéficos para a saúde ou o bem-estar de algumas pessoas é aceita de forma geral e não controversa”.
Claro que a aceitação das pesquisas e, mais do que isso, do conceito, pela ciência, não é tão generalizada. Existem resistências ferrenhas, mas o simples fato de vários pesquisadores sérios estarem envolvidos nesses estudos em todo o mundo já dá ideia de que não se trata de uma brincadeira.
Para os atuais magos, ou estudiosos de magia, essa é mais uma prova de que a magia sempre esteve à frente da ciência, senão em todos os aspectos e áreas, pelo menos no que diz respeito aos seus conceitos fundamentais, à forma como veem a relação entre o ser humano e a natureza, e entre os próprios seres humanos.
Imagem: fszalai/ Pixabay.
No prefácio do sensacional livro A História da Magia (1948. Edições 70, Portugal), de Kurt Seligmann (1900-1962), o não menos competente Jacques Bergier (1912-1978) se refere a esse aspecto da magia. Não por acaso o prefácio é intitulado “A Magia, Ciência Fóssil?”, e nele Bergier escreve que “Frequentemente, os antigos magos percorreram, antes de nós, à sua maneira, os caminhos que a nossa ciência está em vias de redescobrir. São os antepassados dos nossos sábios”.
Claro que os cientistas de hoje discordam desse ponto de vista, entendendo que, para a magia, não existe a necessidade de comprovação dos fenômenos como ocorre na ciência.
Bergier tinha o que chamava de ponto de vista racionalista sobre a magia. Ele entendia que, para aqueles que acreditam que o universo nada mais é do que uma ilusão, um pensamento do Grande Arquiteto do Universo, a magia não apresentava dificuldade, bastando substituir uma ilusão por outra. Ele entendia que o universo é real e que os meios de atuação sobre este universo real tinham de ser necessariamente técnicos, como máquinas, produtos químicos, etc. No entanto, ao adotar esse pensamento, só se torna possível seguir duas atitudes com relação à magia: ou se nega sistematicamente os chamados fenômenos mágicos, ou se procura a explicação para eles.
Bergier propunha, então, três explicações possíveis para a magia. Uma seria baseada unicamente no acaso. Assim, os magos fariam suas descobertas ao acaso depois de passarem muito tempo ensaiando suas ações. A segunda hipótese a que se refere Bergier “É a que consiste em supor que a magia pudesse dispor de fontes mais certas do que as da ciência, e que isso punha os magos em posição de obterem facilmente o que os sábios penosamente vão arrancando da natureza”. Hipótese na qual ele também não acredita, preferindo acreditar que existe uma realidade espiritual e que o contato com essa realidade pode produzir emoções tais como o êxtase místico. Ainda assim, era difícil para ele sustentar que esse contato com outra realidade fornecesse instruções tão detalhadas como as utilizadas pelos alquimistas para construir seus laboratórios.
A terceira hipótese, e que foi um conceito que Bergier sempre defendeu, dizia que uma ou mais civilizações já desaparecidas teriam alcançado um nível tecnológico superior ao nosso, do qual restavam ainda algumas informações, registradas por meio de rituais e receitas. Essa proposta tem muitos defensores hoje em dia, mas é absolutamente rechaçada pelas posturas ortodoxas da arqueologia e da história.
A questão do êxtase místico à qual Jacques Bergier já se referia tantos anos atrás pode ser uma das chaves para o chamado “contato com a espiritualidade”, ou com uma realidade espiritual, dimensão paralela, ou como queiram chamar. E não é por acaso que também esse conceito tenha sido profundamente estudado por pesquisadores e cientistas sérios como Terence McKenna (1946-2000) e David Lewis-Williams (1934-). Sem nos aprofundarmos na questão, ambos defendem que a utilização de certos tipos de plantas alucinógenas promoveram o contato da humanidade com outra realidade e até mesmo levaram os seres humanos a formar a sociedade que hoje se estende por todo o planeta.
Xamã da Sibéria (Foto de William Henry Jackson, 1895).
Essa seria a base das sociedades xamânicas em que, para muitos pesquisadores, primeiro se desenvolveu o conceito de magia e de contato com as dimensões espirituais, o que pode ter ocorrido quando os humanos ainda viviam em cavernas.
Dessa forma, o desenvolvimento dos xamãs e magos nas sociedades foi de imensa importância. James George Frazer se referia a esse tipo de magos como uma espécie de funcionários públicos, uma vez que a magia que praticavam era para o bem geral da sociedade, da comunidade. “O desenvolvimento dessa classe de funcionários”, ele escreveu, “é de grande importância para a evolução, tanto política quanto religiosa, da sociedade. Quando se passa a achar que o bem-estar da tribo depende da realização desses ritos mágicos, o mago se eleva a uma posição muito influente e de grande reputação, podendo alcançar a dignidade e a autoridade de chefe ou de rei”.
Frazer ainda entendia que a religião substituiu a magia na maior parte das sociedades. Na magia, ele dizia, o ser humano dependia de sua própria força para enfrentar os perigos e dificuldades do mundo, partindo do pressuposto de que existe uma ordem estabelecida da natureza com a qual pode contar seguramente e que pode manipular para seus próprios fins. No entanto, descobre seu erro, percebendo que tanto a ordem quanto o controle que julgava possuir eram imaginários. Ele deixa de confiar em sua própria inteligência e passa a se colocar à mercê de certos seres invisíveis. A religião, então, passa a explicar a sucessão de fenômenos naturais como algo regulado pela vontade, paixão ou capricho de seres espirituais com poderes superiores aos do ser humano. E quando as explicações da religião passaram pelo mesmo processo de descrença e reavaliação racional, o ser humano chegaria à ciência.
Imagem: Kimy F./ Pixabay.
Em sociedades mais recentes, essa questão fica ainda mais confusa para quem estuda a magia, porque muitos magos modernos estiveram (ou estão) profundamente ligados a alguma religião; outros foram figuras importantes do desenvolvimento científico ou filosófico, confundindo magia e ciência.
É comum que, na visão moderna da magia, se fale de recuperação de valores e conhecimentos ancestrais, de volta à natureza, encontro consigo mesmo, a descoberta do deus interior, o desenvolvimento de um novo paradigma que possibilite unificar os conhecimentos e procedimentos da magia, religião e ciência, retornando ao que, supostamente, eles já foram um dia (ou àquilo que, um dia, foi um conhecimento unificado).
Fala-se que a magia é praticada diariamente, nas menores ações, até mesmo cozinhando para a pessoa amada, o que não deixaria de ser verdade se considerarmos a já discutida questão do poder da fé, ou seja, do pensamento focado, objetivando um determinado resultado.
Ocorre ainda uma mistura de magia com mecânica quântica, a grande vedete de uns tempos para cá, ainda que a maioria das pessoas não tenha a menor ideia do que se trata. Magos contemporâneos famosos costumam dizer que fazer magia não se trata de criar condições atmosféricas específicas, ou de fazer isso ou aquilo para determinadas pessoas; mas era exatamente disso que se tratava no início, e a procura de alguns dos maiores magos da história foi nesse sentido ou, pelo menos, especialmente nesse sentido.
Enquanto alguns pesquisadores dizem que os alquimistas realmente procuravam a pedra filosofal ou a transmutação dos metais, outros dizem que essas buscas eram metáforas, figuras de linguagem para explicar uma transformação interior. O mesmo se fala sobre a cabala dos judeus; para uns, é um estudo filosófico, de engrandecimento da alma, de encontro com Deus; para outros, é um sistema real e codificado de atuação no mundo, como Bergier julgava que a magia deveria ser, ou como de fato era.