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O MUNDO DOS MAGOS

MAGOS E SACERDOTES NA MESOPOTÂMIA

Autor Gilberto Schoereder
30/03/2026

Tida por alguns como o berço da civilização, a Mesopotâmia foi também fundamental para o desenvolvimento da magia e a expansão dos conceitos para o restante do mundo.


Possível representação de Gilgamés em relevo de palácio assírio, atualmente no Museu do Louvre (713-706 a.C.).

No livro História das Ciências Ocultas (Ediouro), o autor, Friedrich W. Doucet, diz que o mais antigo texto conhecido sobre magia é A Epopeia de Gilgamés, que não poucos historiadores entendem ser o primeiro livro elaborado por uma cultura. Remonta aos primórdios da civilização da Suméria que, por sua vez, alguns entendem ser a mais antiga do planeta, e onde nasceu a escrita.
Grande parte dos ocultistas não concorda com essa afirmação, entendendo que as civilizações lendárias da Atlântida e Lemúria (ou Mu), realmente existiram milhões de anos atrás, e todo o conhecimento da civilização sumeriana seria apenas uma parte do legado que elas deixaram, a maior parte tendo se perdido ao longo dos milênios.
No entanto, das prováveis Atlântida, Mu e seus sacerdotes e magos, pouco sabemos, a não ser o que relatam obras que não são bem recebidas por historiadores, arqueólogos e antropólogos. Estes últimos preferem atribuir o nascimento da magia aos xamãs, tidos por alguns como os primeiros sacerdotes, ainda que sem um sistema hierárquico organizado, como veio a se desenvolver posteriormente em inúmeras religiões e organizações ocultistas.
Para Doucet, no entanto, A Epopeia de Gilgamés reúne alguns dos elementos básicos da magia, ou seja, a noção de que o conhecimento criativo é um presente dos deuses, que o ser humano adquire conhecimento através dos sonhos, dormindo ou sonhando acordado, ou por visões que levam ao êxtase. Essa é, na verdade, a base do xamanismo, sistema que geralmente envolve a utilização de drogas de algum tipo para induzir ao êxtase. Nem todos os estudiosos concordam com isso, indicando a existência de culturas em que os xamãs não se utilizavam de qualquer tipo de beberagem para induzir as visões.
Mais que isso, continua Doucet, os conhecimentos que o mago – ou herói, no caso de Gilgamés –, adquire em sua jornada interior ou a outras dimensões da existência não podem ser obtidos por meio de um processo de aprendizado, e permitem que o mago tenha acesso aos desígnios ou planos secretos dos deuses.
O já citado Kurt Seligmann, ao apresentar a figura do mago, concorda com esse ponto de vista, afirmando que o mago é visto como um detentor de segredos ocultos, “um mestre de sabedoria esotérica que faz uso do seu saber para seu próprio proveito bem como para o do próximo”.

                                           Estátua do rei demônio Pazuzu, da cultura assíria-babilônica (c. 800-700 a.C.).

Não por acaso, Seligmann também começa a contar sua história da magia pelas culturas que se desenvolveram na Mesopotâmia, mais exatamente pela Suméria, incluindo na listagem dos povos que se dedicaram à magia os acadianos, os elamitas, antepassados dos persas, os babilônios, especialistas em astrologia, e os assírios.
Para ele e tantos outros especialistas no oculto, “Desde tempos imemoriais que o homem tem sentido a presença de seres sobrenaturais malignos e a sua arma contra estes tem sido o recurso a ritos mágicos”. Para os antropólogos, esses seres sobrenaturais malignos eram apenas eventos e fenômenos naturais sobre os quais os seres humanos não tinham o menor controle, de modo que inventavam os rituais de magia como forma de controle. Os estudiosos mais descrentes e com propensão a ver as coisas pelo aspecto social e político podem entender que essa foi uma forma de estabelecer uma classe dominante, governante, os únicos que tinham acesso ao mundo sobrenatural invisível e, desse modo, obtinham ascendência sobre a população.
Mas essa não é uma postura generalizada entre os especialistas. De modo geral, entende-se que a população dessas culturas realmente acreditava que o mundo estava repleto de seres maléficos, espíritos malignos, larvas e lêmures que viviam embaixo da terra, vampiros que fugiam do mundo dos mortos para atacar os vivos, demônios do mal e, no caso da Mesopotâmia, também demônios do deserto.
Nas religiões mágicas, como Seligmann as chama, os sacerdotes entravam em contato com os espíritos bons, que contrabalançavam a situação, além de imaginar os deuses capazes de resolver cada questão específica.
Acredita-se que foi nessa região, desde cinco mil anos antes de Cristo, que começaram a se desenvolver os primeiros encantamentos, tanto para o mal quanto para o bem, pois se a magia podia ser usada para proteção, também podia ser usada para atacar.
Foi nessa profusão de deuses do bem e do mal e outras criaturas maléficas que o grande escritor H.P. Lovecraft (1890-1937) buscou parte de sua inspiração para compor suas obras envolvendo deuses extraterrestres que, um dia, dominaram nosso planeta. É também na Mesopotâmia que alguns pesquisadores, como Zecharia Sitchin (1920-2010), afirmam ter existido uma raça alienígena dominadora, manipulando os humanos geneticamente para obter uma raça de escravos, raça que foi confundida com deuses.
Na Suméria desenvolveu-se, talvez pela primeira vez na história, a capacidade de registrar as orações, preces, encantamentos e maldições, de forma que pudessem ser recitadas várias vezes, sem qualquer alteração, para que seu poder não se perdesse. Esse conceito foi fundamental em praticamente toda a magia subsequente, até os dias atuais.
Já a partir da civilização da Caldeia, que existiu entre os séculos 10 e 6 antes de Cristo, formou-se uma casta de sacerdotes que detinham o poder e previam o futuro, utilizando uma série de maneiras diferentes. E é da Mesopotâmia que vem a astrologia, a partir desse desejo de interpretar o futuro. Pela interpretação dos antropólogos, a astrologia segue de perto o padrão básico da magia xamânica primitiva de similaridade, de modo que os astros determinam o que ocorre na Terra.

Moisés liderando a fuga dos judeus (Passagem dos Judeus pelo Mar Vermelho. Ivan Aivazovsky, 1891).

Segundo Seligmann, as Escrituras referem-se à magia como algo cuja existência é indubitável, uma realidade inquestionável. Observado do ponto de vista dos magos modernos, Moisés seria um mago. No entanto, do ponto de vista das Escrituras, a magia e o ocultismo são perniciosos porque vão contra os ensinamentos divinos. Dessa forma, a religião dos hebreus, assim como a dos cristãos, se opõe à magia entendendo que é uma força que se intromete ilicitamente no poder divino. Assim, como diz Seligmann, “O milagre bíblico não difere inteiramente dos prodígios mágicos que figuram na Sagrada Escritura e apenas se distinguem pelo fato de, num caso, intervirem a vontade e ajuda de Jeová, ao passo que no outro se dá a participação do espírito do mal”.
Ao mesmo tempo em que Moisés, no Egito, operava milagres, os magos da corte faraônica Janes e Jambres eram capazes de imitar muitos dos feitos de Moisés (ver em Os Magos ao Longo dos Tempos), mas é dito que o diabo, “o imitador de Deus”, foi quem os ensinou a realizar os mesmos milagres do profeta. Como o poder diabólico é limitado, os magos do Egito podiam, por exemplo, fazer aparecer as rãs, mas não conseguiam fazê-las desaparecer. Assim, o Velho Testamento estabelece a diferença entre o milagre e a magia negra.
No entanto, como diz Seligmann e outros estudiosos, para um observador isento, Moisés seria apenas um mago mais talentoso. A interpretação ligando os demais magos à magia negra é apenas uma forma de concretizar o poder da religião em questão, aquela que está escrevendo a história.
Entre outras, também são citadas como operações mágicas na Bíblia:
– O patriarca Jacó utiliza ramos de choupo para reproduzir o princípio mágico de que o igual produz o igual (lei de similaridade);
– José praticava a adivinhação pela hidromancia, ou seja, descobria as “coisas ocultas” pela contemplação da água;
– Moisés, além dos milagres realizados com a ajuda de Jeová, utilizava imagens como talismãs contra os males;
– um costume dos hebreus consistia em transferir o mal para um animal (daí a frase, ainda hoje utilizada, de “bode expiatório”).


Magus

Estátuas de ouro do império Aquemênida, século 4 a.C., representando magi, ou sacerdotes zoroastrianos (Foto: Nickmard Khoey/ Wikimedia).

Tanto a palavra “magia” quanto a palavra “mago” parecem ter procedência na Mesopotâmia, mais exatamente entre os medas, povo que formou imenso império que antecedeu a Pérsia, atual Irã. Segundo o historiador grego Heródoto, os magi (plural de magus) eram os sacerdotes dos medas. Quando eles foram incorporados ao ainda maior império persa, assimilaram o Zoroastrismo, modificando-o. No entanto, a casta dos magi foi dominada e conquistada por Ciro, da Pérsia, após o fim do poder da Assíria e da Babilônia; e ainda foram reprimidos por Cambisses, filho de Ciro.
Quando os medas foram absorvidos pelo império persa (por volta de 550 a.C.), os magi aceitaram o Zoroastrismo, modificando-o e formando o Zurvanismo, já desaparecido. Alguns historiadores afirmam que os magi eram uma classe distinta do povo meda. Em Jeremias (39:3, 39:13) é citado Nergal-Sereser como o “mago chefe” da Babilônia.
O termo, no entanto, passou para a história, e ao longo do tempo foi utilizado para descrever as pessoas, sacerdotes ou não, iniciados nas chamadas artes ocultas, até mesmo expandindo o significado original.
Diz-se que o plural magi passou a fazer parte da língua inglesa por volta do ano 1.200, referindo-se aos magos mencionados em Mateus 2:1 (os três reis magos). O singular magus só passou a ser utilizado por volta do século 14, vindo do francês e significando tanto mago quanto magia.

 

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