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Rastafári – O Caminho Para Sião
| Autor |
Gilberto Schoereder |
|
05/06/2026 |
Apesar de não ser uma das religiões mais seguidas do mundo, certamente o rastafarianismo tornou-se uma das crenças mais populares, especialmente devido à divulgação por meio do reggae.
Ras Tafari, por volta de 1923 (Imagem: American Colony/ Jerusalem).
Quando se fala em rastafári, ou rastafarianismo, a associação imediata é com o reggae – o ritmo musical difundido no mundo inteiro por Bob Marley. É com a Jamaica, com dreadlocks e, claro, com a maconha.
Porém, se formos seguir a história com mais detalhes, vamos parar em uma época em que a Jamaica sequer existia como nação. Mais exatamente, na época do rei Salomão de Jerusalém, da rainha de Sabá, sua suposta amante por algum tempo, e de Menelik, o filho dos dois, que governou o reino de Sabá, às vezes identificado com a Etiópia.
Tudo o que se refere ao rastafarianismo está ligado aos judeus da Etiópia, à Bíblia e ao Kebra Nagast, texto etíope que significa “Glória dos Reis” ou “Esplendor dos Reis”. Historiadores da África como Joseph Ki-Zerbo (1922-2006. Autor de A História da África Negra) afirmam que o livro foi escrito no século 14; outros pesquisadores entendem que ele foi criado por volta de 850 a.C. O orientalista alemão Carl Bezold (1859-1922) disse que baseou sua tradução do Kebra Nagast para o alemão em textos vertidos do etíope para o árabe em 409, o que, se fosse confirmado, eliminaria a hipótese do século 14.
Seja como for, é um texto religioso muito antigo e que se tornou um dos pontos fundamentais na construção da religião rastafári, ainda que alguns seguidores prefiram a Bíblia como referência.
Menelik é tido como o antecessor da dinastia salomônica da Etiópia, iniciando uma linhagem de governantes que se estendeu até Haile Selassie I (1892-1975), coroado imperador da Etiópia em 1930. Para os seguidores do rastafarianismo, Selassie é considerado “Deus encarnado”, Jah – palavra que os linguistas afirmam vir do hebraico Yahweh, ou Jeová. Daí chamarem-se “a tribo de Jah”.
O próprio nome da religião vem do nome de Selassie antes de ser coroado: Tafari Makonnen. “Ras” significa “cabeça”, um título de nobreza etíope. Selassie era visto como parte da Sagrada Trindade, o messias prometido nos textos sagrados. Ele tinha os títulos de “Rei dos Reis” e “Leão de Judá”. No livro do Gênesis da Bíblia, ou na Torá dos judeus, a tribo de Judá tinha como símbolo um leão. No Cristianismo, o nome Leão de Judá é frequentemente aplicado ao próprio Jesus Cristo.
Diz-se que, quando a rainha de Sabá retornou à Etiópia, muitos judeus foram com ela, em particular das tribos de Dan e Judá. Daí a existência de muitos judeus na Etiópia, ainda hoje.
O rastafarianismo não teve somente preocupações religiosas, mas surgiu também como um movimento de resgate cultural e preocupações políticas. Desenvolveu-se a partir dos anos 1930, em parte inspirado pelas ideias do jornalista, publicitário, editor e empresário jamaicano Marcus Garvey (1887-1940), considerado Herói Nacional da Jamaica. Ele fundou o Universal Negro Improvement Association and African Communities League.
Os rastafáris viam Garvey como um profeta e, às vezes, como a reencarnação de São João Batista. Já nos anos 1920, Garvey referia-se a “um rei negro que seria coroado” na África, indicando uma época de libertação. Os rastafáris interpretaram isso como uma profecia referente à coroação de Selassie.
A bandeira da Etiópia usada durante o governo de Haile Selassie e adotada pelos rastafaris, com o leão conquistador de Judá, símbolo da monarquia etíope, com as cores vermelha, dourado e verde.
Diz-se que, no início do movimento, os rastafáris estavam associados ao conceito de “voltar para a África”, presente no pensamento de Garvey. Todavia, aquele considerado “o primeiro rasta” foi Leonard Howell – James Peregrine Howell (1898-1981) –, religioso que deixou a Jamaica quando criança, retornando em 1932. Já em 1933, começou a pregar, entendendo que Selassie era o messias prometido pelas escrituras sagradas. Howell foi preso e julgado por crimes contra o Estado, ficando na cadeia por dois anos.
O movimento desenvolveu-se assim mesmo e, após ser libertado, Howell entrou em choque com os poderes locais, do Estado, da Igreja, polícia, sindicatos e proprietários de terras.
Além do reconhecimento do imperador Haile Selassie como messias e um ser supremo, também defendia o retorno à África, a dignidade da raça negra e a oposição total a todo tipo de perversidade.
O Imperador Haile Selassie I com a Rainha Elizabeth II, em 1954 (Associated Press).
A relação do rastafarianismo com ideias de libertação não é casual. No livro Procurando por Deus (Ediouro), o autor Steven Sadleir lembra que o movimento rastafári “tem suas origens no comércio de escravos e na repressão de negros na Jamaica pelas classes dominantes de brancos”. Assim, os anos de lutas socioeconômicas e a falta de identidade religiosa da maioria negra deram origem à rebelião do Movimento de Volta à África, liderado por Garvey – antecedendo em muitos anos os movimentos semelhantes surgidos entre os negros dos Estados Unidos.
Em 1953, os líderes rastas – entre eles Howell, Joseph Hibbert (1894-1986), Archibald Dunkley e Robert Hinds – formaram uma comunidade chamada Pinnacle (Pináculo), com cerca de cinco mil adeptos, próximo da capital Kingston. Também nessa época, começaram a deixar crescer os cabelos, os dreadlocks, como forma de identidade de grupo.
No local, cultivavam a ganja, a maconha, que era ilegal no país, mas utilizada com fins rituais no rastafarianismo. A polícia invadiu o local, queimou as plantações e casas, e muitos membros do grupo foram presos.
Apesar do impacto que isso causou no movimento, ele prosseguiu nos anos seguintes, ainda que bastante modificado. Tornou-se menos militante e multirracial, com seus conceitos espalhando-se pelo mundo especialmente por meio da música, o reggae.
Crenças
Como não é uma religião organizada hierarquicamente, as crenças entre os rastafáris variam. Geralmente, como acreditam que seus próprios corpos são a verdadeira igreja ou templo de Deus, não veem necessidade de construir esses templos, fisicamente.
The Promised Key (W. Gabriel Selassie I/Orunmilla, Inc., 2015).
Alguns têm o Kebra Nagast como livro sagrado; outros, a Bíblia; outros defendem ambos como sagrados. Fala-se ainda no livro chamado The Holy Piby, escrito nos anos 1920 por Robert Athlyi Rogers (1891-1931), de Anguilla, ilha do Caribe, território britânico. A publicação é tida por alguns como proto-rastafári, e apresenta os etíopes como o “povo escolhido por Deus”. No entanto, o primeiro texto considerado nitidamente rastafári é The Promised Key, de Leonard Howell, nos anos 1930.
Os rastas promovem amor e respeito por todas as coisas vivas. Dão extrema importância à dignidade humana e ao autorrespeito. Defendem a libertação de toda escravidão e opressão, espiritual, psicológica ou física. Rejeitam a sociedade atual moderna, corrupta, a qual chamam de Babilônia. Desde os tempos do rei Nimrod – citado na Bíblia e a quem se atribui a construção da Torre de Babel –, essa Babilônia está contra Jah, o legítimo governante da Terra.
Imagem: Mister Pittinger/ Pixabay.
Enfatizam sua lealdade a Zion, aqui associada à África. Não é apenas o ponto de início de toda a humanidade, mas também o estado mental original, que pode ser atingido por meio da meditação e da utilização da ganja. Mais especificamente, Zion é a Etiópia (Zion é Sião, originalmente o nome dado a Israel ou a Jerusalém. Designava a área de Jerusalém e, depois, mais especificamente, o Templo de Salomão e a Terra Prometida).
Alguns rastafáris acreditam que representam os verdadeiros Filhos de Israel na atualidade. Alguns entendem que apenas metade da Bíblia foi escrita e que a outra metade está escrita no coração dos homens. Assim, um dos conceitos é que até mesmo os iletrados podem ser rastas lendo as palavras de Deus em seus corações. Também acreditam que a metade perdida da Bíblia, assim como tudo o que foi tirado de sua cultura, pode ser encontrada na Arca da Aliança. De fato, ainda hoje a Igreja Ortodoxa da Etiópia afirma ter em seu poder a Arca da Aliança.
Dreadlocks
Imagem: Frank Rietsch/ Pixabay.
Os drealocks, os cabelos arrumados em forma de tranças longas e grossas, tornaram-se mundialmente conhecidos por meio do movimento rastafári. No entanto, a prática não surgiu com o rastafári, sendo conhecida em diferentes pontos do planeta e, muitas vezes, relacionada a alguma religião.
Diz-se que no antigo Egito já se utilizavam as tranças, e exemplos disso podem ser encontrados em relevos e estátuas. O deus hindu Shiva também é descrito como usando tranças, e a prática era conhecida entre os gregos e muitos povos das ilhas do Pacífico.
Imagem: Mister Pittinger/ Pixabay.
Para alguns homens sagrados da Índia, as tranças são vistas como uma prática religiosa e como sinal da indiferença com a vaidade.
Desde que os rastafáris começaram a utilizar em larga escala como símbolo de sua postura contra o establishment, contra as instituições e o poder, os dreadlocks, ou simplesmente dread, também passaram a ser usados por muitos grupos em todo o mundo, e não necessariamente ligados à cultura rasta ou ao reggae.
Evidentemente, é também usado apenas como uma moda, sem qualquer conotação social ou religiosa.
Kebra Nagast
Texto antíope significando “Glória dos Reis” ou “Esplendor dos Reis”. O historiador Joseph Ki-Zerbo cita o texto como sendo do século 14, mas outros historiadores entendem que a obra tem origem por volta de 850 a.C. O historiador e tradutor Carl Bezold disse ter-se baseado, em sua tradução para o alemão, em textos vertidos do etíope para o árabe em 409 d.C. Como no Kebra Nagast existem relatos acerca do rei Salomão, que viveu aproximadamente até 926 a.C., o texto deve ser realmente muito antigo.
A Visita da Rainha de Sabá ao Rei Salomão (Sir Edward John Poynter, 1890).
Faz uma descrição dos métodos para a construção da Arca da Aliança, citada na Bíblia como receptáculo para algo criado pelo Senhor. A história, ou lenda como preferem alguns, cita a rainha Makeda, que governava a Etiópia na época; ela visitou o rei Salomão e com ele teve um filho, Baina-lehkem, mais tarde consagrado como rei Menelik, o iniciador de uma nova dinastia na Etiópia.
A rainha Makeda confunde-se com o nome da rainha de Sabá e, na Bíblia, só se fala na visita da rainha de Sabá, um reino localizado aproximadamente onde hoje fica o Iêmen, na península arábica. Não se sabe se a rainha da Etiópia era também a rainha de Sabá, mas tudo indica esse caminho, uma vez que as narrações da Bíblia e do Kebra Nagast são muito parecidas nesse ponto.
A Arca da Aliança se torna um dos pontos centrais do texto, uma vez que Menelik vai visitar Salomão em Jerusalém e consegue convencer seu pai a lhe dar a Arca da Aliança, a qual leva para a Etiópia às escondidas, uma vez que Salomão não desejava que ninguém soubesse do ocorrido. Em seu lugar, Menelik deixou uma réplica de madeira. Uma parte impressionante dos relatos do texto etíope se refere a um dos inúmeros presentes que a rainha Makeda ganhou de Salomão e levou para sua terra. Além de veículos para viajar por terra, ganhou um carro capaz de sustentar-se no ar, que teria sido feito pelo próprio Salomão segundo instruções recebidas de Deus. Tudo indica, pelo texto, que esse carro que voava foi utilizado por Menelik para transportar a Arca da Aliança para a Etiópia. E não apenas a Arca como todo seu séquito e animais foram levados pelos ares, o que pressupõe um carro voador bastante grande.
O Kebra Nagast fala da passagem do rei e seu carro voador pelo Egito, derrubando obeliscos por onde passavam. Para alguns pesquisadores, essas narrativas são o suficiente para relacioná-las com a possível presença de seres extraterrestres no passado remoto do planeta, influenciando civilizações e introduzindo, em alguns casos, aparelhos muito adiantados, impossíveis de existir na época citada. Para a maioria dos estudiosos, no entanto, esses relatos não podem ser tomados ao pé da letra, mas sim metaforicamente.
Matéria publicada originalmente na revista Sexto Sentido 97 (2008).